terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Vai Nu.

Em casa milhões o sabiam há muito tempo mas foi preciso um estrangeiro descalçar os sapatos para sublinhar o óbvio: o rei vai nu.

Chamou-lhe cão e atirou-lhe os sapatos.
Perdoem-lhe os caninos.

Foi indecente, imprudente e rude. Mas também foi bravo senão mesmo corajoso e mais importante: o seu acto infame de arremessar o calçado foi carregado de verdade.

Tornou-se da noite para o dia, e só por um dia, um símbolo da revolta calada que se expressa num grito.

Dizem as notícias que os árabes em geral sentem desconforto com o comportamento do jornalista descalço. Que mesmo aos inimigos, não se trata assim, que não foi cortês. Que semelhante episódio não pertence ali, é coisa de acontecer só pelas Américas. Que enfim... parece mal.

Desculpem-me as excelências a frontalidade deste vosso europeu, mas para mim faltam mais sapatos arremessados aos que fazem pouco dos outros. Olhando para o nosso cantinho à beira mar plantado, falta no meu sapateiro calçado suficiente que chegasse para assapatar a matilha que para aí anda: banqueiros corruptos e fiscais incompetentes, pedófilos em julgamento, políticos inertes e ministros autistas, jornalistas incompetentes e inconscientes (ou não, que só agrava a sua culpa) da desinformação que provocam ou permitem, jornalistas inertes, jornalistas que só falam na maddie, jornalistas marionetes que só falam no que lhes dizem que falem, e por mencionar deixo outros quantos ilustres.

Havia de ser bonito... Ficava o país descalço.

sábado, 22 de novembro de 2008

Porto

Consultar um instrumento das letras como o dicionário é sempre oportunidade para recordar o quanto as palavras nada valem, nada são.
do Lat. portu

s. m.,
__lugar reentrante na costa do mar ou junto à foz de um rio, onde os navios podem fundear;
__lugar onde se embarca ou desembarca;

fig.,
__lugar de refúgio ou de descanso;
__abrigo;
__vinho do Porto.


Já diziam à Alice que o significado que as palavras têm é apenas o que cada pessoa lhe atribui, consciente disso ou não, na imensa e complexa rede de conceitos vivos no seu tecido cerebral. A palavra Porto tem para mim, na malha de circuitos do meu tecido cinzento, significado pessoal, que nada se prende com definições comuns, quer à cidade quer ao néctar de uva local.

Tem talvez pontos de contacto com um desses portos de dicionário, que podem ser de abrigo ou desembarque, que quando navegamos em águas estrangeiras, porto desconhecido que nos recebe em terra estranha. (1)

O Porto que penso é muito próprio: Porto que é porta à memória, ponto de contacto, olhos nos olhos, com a saudade. De tal ordem que mesmo de pouco contacto e de poucas horas convividas, de quase zero conhecimento, por algo comum, nutre-se ternura e cumplicidade um pelo outro.
Compreendemo-nos e entendemo-nos sem sabermos nada do que o outro sabe ou pensa, de tal ordem que a conjugação no plural é em boa verdade um abuso de minha parte.

Compreendemo-nos e entendemo-nos porquando nos olhamos não nos enxergamos um ao outro mesmo estando à frente um do outro. Vemos além disso. (Vemos-te a ti António.) Como vêm, se estão a ler, as palavras nada são. Falei de coisas que só eu sei, de modo estranho talvez, porque talvez entenda que não as devo deixar claras. As palavras nada e tudo são.


PS: Adeus Porto.


1) Como é fácil cair em falácia quando percorremos os fios emarenhados do pensamento! Dizía acima que nessas teias de ideias do raciocinio, as palavras nada são, por serem tão próprias e pessoais, e no entanto, já antes do dilema da comunicação das ideias, só na solidão do nosso pensar, os conceitos não sabem sobreviver anónimos, carecem de nome para os podermos examinar. E se nos excusarmos dessa actividade de pensar o pensar, antes mesmo de limitarmos a comunicação, já nos estamos a reduzir ao estatuto dos outros animais sem língua que se entenda.

sábado, 15 de novembro de 2008

23













O senhor das gravatas rosas agradece as mensagens, as chamadas, as surpresas, e outros mimos, inclusive as chamadas que não atendi (desculpa *) e as que, por vinte minutos ou mais algumas horas, já só vieram no dia 13.


'Brigado.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Acordar

Que droga foi a que me inoculei?

Nem ópio nem morfína. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante
Manhã tão forte que me anoiteceu.

excerto de «Alcóol» de Mário de Sá Carneiro

Fon Fon Fon

Tasquinhas de Arruda, 5 Nov 2008, Deolinda alegra a noite com especial destaque para o fon fon fon.




Num registo mais meloso, há quem ande a raptar Melros para usufruto pessoal.

sábado, 1 de novembro de 2008

racionais

A perseguição da excelência, qualquer que seja a sua definição e o seu contexto, é uma busca que não termina. É uma prática, é um contínuo, é um desafio constante que requer a luta diária contra o laxismo em todos os cantos onde o encontremos e toda a situação em que a preguiça nos tente. Como aconselha a Rainha de Copas à Alice: no mundo real tens de correr duas vezes mais depressa só para te manteres no mesmo sítio.

«We are what we repeatedly do.
Excellence then, is not an act, but a habit
Aristotle

Urge repetidamente uma chamada de confronto interno com a realidade. Nessa actividade contínua e implícita de todos que é a arrogante vontade de querer ser mais e melhor, há a sublinhar a importância do ponto de controlo necessário a qualquer gestão, o terceiro passo no ciclo de Deming: check.

«Obstinas-te em ser mundano, frívolo e irreflectido, porque és cobarde. Que é, senão cobardia, o não quereres enfrentar-te contigo mesmo?»
Josemaría Escrivá

Este é naturalmente o ponto problemático do processo pois envolve a maldita introspecção, como nos aconselha a placa na cozinha da Oráculo (Matrix): know thyself. O passo seguinte, o da acção em conformidade com a situação identificada, deveria ser uma consequência natural emergente deste conhecimento.

Se o não é, falha de base a resolução, a solidez do conhecimento, ou a honestidade e profundidade da introspecção. Pior será se falha de base a vontade, a crença, e a motivação implícita de trilhar um caminho que se diga de progresso, de mais e melhor, e de salutar individualidade. Não é necessário conhecer o caminho, até porque não é possível conhecer o caminho. Mas como responde o gato à nossa confusa amiga Alice: senão sabes para onde vais, qualquer caminho te levará lá.

Os trajectos pré-programados são portanto inúteis. O importante é saber como se quer caminhar, porquê, e saber ajustar o percurso à medida que vai sendo trilhado.

«I have always found that plans are useless, but planning is indispensable.»
Dwight Eisenhower

É deste processo que são feitas as únicas certezas válidas, as da ciência. As leis que são forgadas na chama da dúvida. É apenas sobre uma cultura de dúvida, de inquisição, de contante verificação que se podem manter válidas crenças, admitindo-as como hipóteses a (des)provar e não como inquestionáveis.

É pela submissão ao processo científico da dúvida e à vontade da melhoria contínua que podemos estar certos de que a nossa liberdade não é alienada. É assim o método científico, deveria ser assim (por principio é) o método eleitoral vigente dos estados democráticos. Funciona para a evolução da raça e para a passagem e melhoria do conhecimento colectivo. É a base da governação mais igualitária e imparcial que até ao momento se conseguiu atingir (ainda que menos eficiente a nível financeiro, é um preço a pagar de bom grado pela garantia da liberdade).

Parece-me por tudo isto um bom modelo para governação pessoal.

Mas fora deste âmbito do rigor e da frieza e do que é mensurável nas relações humanas, surgem os pequenos saltos de fé. A palavra pequenos é aqui empregue com um intento manipulador pois todos os saltos de fé, sendo saltos, são para qualquer cientista grandes demais.

Mas, humanos que somos, resta-nos nas nossas interacções, humanas, simplificar as nossas crenças. Dogmatizar. Em particular as crenças mais complexas. É-nos portanto necessário, por optimização, aceitar como certo o que não podemos, não sabemos ou não queremos verificar.

É preciso em certos pontos, dar um salto de fé, mesmo sabendo que existe o risco de se cair. É assim que se lança qualquer empreendimento, financeiro, empresarial, social, pessoal, individual ou partilhado, que tenha a boa ventura e o privilégio de alcançar algum sucesso e com um pouco de sorte, tornar-se algo duradouro.

«Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better. »
Samuel Beckett

Todos caímos, mas sem tirar as rodinhas à bicicleta ninguém aprende o equilíbrio. Como Locke (o careca da naifa, não o filósofo) por vezes quando estamos perdidos resta-nos este salto.

Chama-se confiar.

Dito tudo isto, gostava de concluir sublinhando que tudo o que digo está naturalmente, tal como o próprio método cientifico e o regime democrático enquanto formas de organização e pensar,
sujeito à prova (em contrário). Todos os comentários são portanto encorajados e bem vindos.

Bem, tudo à prova menos isto: Sejam felizes!

:-)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tranquilidade

Aos sábados, o cantinho no primeiro piso que o cliente reservou à nossa equipa, é tranquilo. Não é bom sinal quando se sabe quão agradáveis são as intalações do cliente ao fim de semana. Mas mau augúrio é essa calma de sábado que já se sabe, antecede tempestade.

Qual Katrina, qual Gustav... O Furacão Zázá atinge variações de escala do mais aviltante que o ser humano conhece. Vem de leve com o inicio da semana, preguiçando paciente ao raiar de cada nova manhã. Devagar, devagarinho, ao longo dos dias da jornada laboral lá vão surgindo os repentes. Seguem-lhes os pequenos gritos, quase guinchos, e a a injúriazinha aqui e o levantar de tom acolá. Subtis presságios da ira por consumar, intervalados pelo tom sereno e delicado reservado à classe das secretárias, voicemails e outros intermediários necessários a ultrapassar com suavidade para poder alcançar o fim, alguém do outro lado da linha para vilipendiar.

Mas a intermitência do altifalante ambulatório é de pouca dura, cedo estala a bomba e rebenta a berraria. Pouco é preciso para Zázá passar o limiar da compostura e começar o trovejar de brejaria, ralhos, asneiras e risadas. Tudo entrosado com uma lógica de argumentação delicerante: "(...) seus grandes nhó nhós, que granda porra! só fazem merda!"

E é assim que o cantinho tranquilo ao sábado se transforma durante a semana em local de vendaval. Não resistem as faculdades lógicas do mais paciente santo. É constante o sobresalto provocado pela incerta intempérie que, quando menos se espera, irrompe em fúria.

Resta-nos imiscuir no pacífico ruído de fundo do debate civilizado dos colegas e clientes, do bater das teclas e dos telefones por atender, e em caso extremo, recorrer ao último reduto de abrigo: os édefones. Zázá que expluda sózinha, ignorada. Furacão ou não, tamanha irritabilidade por certo manifesta a falta de algo (alguém viu o Ambrósio?).

Para imiscuirem vós, caros leitores, aconselho uma música que me transmite alguma paz a este caos diário:

If You Were A Sailboat


If you're a cowboy I would trail you,
If you're a piece of wood I'd nail you to the floor
If you're a sailboat I would sail you to the shore
If you're a river I would swim you
If you're a house I would live in you all my days
If you're a preacher I'd begin to change my ways.

Sometimes I believe in fate,
But the chances we create
Always seem to ring more true.


You took a chance on loving me,
I took a chance on loving you.